Discursos e mensagens feitos com IA que viraram polêmica
Bento • 27 de outubro de 2026

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Discursos e mensagens feitos com IA que viraram polêmica

Posts, votos e leis em que a IA ficou à mostra revelam como o público reage quando descobre a origem do texto de uma autoridade.

Por Léo Bento , roteirista Leitura
Palestrante no palco diante de uma grande plateia
Foto: Alexandre Pellaes no Unsplash

Em 30 segundos

  • Um vereador de Cuiabá publicou um post que começava com uma frase típica do ChatGPT.
  • O voto de um desembargador do TJMG trazia um comando dirigido à IA no meio do texto.
  • Em Porto Alegre, uma lei escrita pelo ChatGPT foi aprovada antes de o autor revelar o uso.
  • As críticas aparecem quando a IA é descoberta por descuido ou revelada depois do fato.

"Agora melhore a exposição e fundamentação deste parágrafo." A frase, típica de quem conversa com uma ferramenta de IA, apareceu em fevereiro de 2026 no voto de um desembargador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, segundo o Poder360. Internautas espalharam o trecho, parlamentares acionaram o Conselho Nacional de Justiça e o caso se juntou a outros textos de autoridades em que a IA ficou à mostra.

Neste terceiro artigo da série, reunimos episódios documentados por veículos jornalísticos no Brasil e no exterior. Vários deles envolvem leis, votos e posts, gêneros diferentes do discurso de palanque. Em todos, uma autoridade apresentou ao público um texto ou uma fala, e a forma como esse material foi feito acabou exposta. Atribuímos cada fato à reportagem que o registrou, com as ressalvas que ela traz.

O vereador de Cuiabá e a frase do ChatGPT no post

Em outubro de 2025, o vereador Dídimo Vovô (PSB), de Cuiabá, publicou um texto criticando a viagem do prefeito Abílio Brunini (PL) a Dubai e à China. O post começava com a frase que o ChatGPT coloca no topo das respostas: "Aqui está a versão revisada e aprimorada do seu texto". Segundo o FolhaMax, o deslize virou assunto nas redes. Um comentário registrado pela reportagem dizia que o vereador "esqueceu de editar a legenda que o ChatGPT criou". Outro lembrava que apagar não resolvia: "Já tiraram print!".

O vereador apagou a publicação e postou de novo, sem a frase. Um assessor admitiu o erro em vídeo no Instagram, incorporado pela matéria, e defendeu a ferramenta com a frase "Dá mobilidade, embora usei da forma errada". O FolhaMax é um veículo regional e não informa números de alcance. Mesmo com esse limite, é o caso brasileiro documentado mais próximo de um texto de IA que virou piada pública.

O comando de IA esquecido no voto de um desembargador do TJMG

O caso de Minas Gerais pesa mais. Em 11 de fevereiro de 2026, a 9ª Câmara Criminal do TJMG absolveu, por maioria, um homem de 35 anos acusado de estupro de vulnerável contra uma menina de 12 anos. O voto do relator, o desembargador Magid Nauef Láuar, segundo o Poder360, trazia o comando dirigido à IA no meio do texto.

Segundo o Poder360 e o jornal Correio, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou vídeo criticando a falta de cuidado, parlamentares acionaram o CNJ e o Ministério Público de Minas Gerais informou que vai analisar a decisão. As duas reportagens divergem em detalhes: o Correio transcreve a frase como "desse parágrafo" e não nomeia o desembargador, cujo nome aparece no Poder360, que transcreve "deste parágrafo". Nenhuma delas informa números de alcance da repercussão.

Leis e sentenças feitas com IA: Porto Alegre, Acre e Peru

Em 2023, a Câmara de Porto Alegre aprovou por unanimidade, e o prefeito Sebastião Melo (MDB) sancionou, uma lei que isenta o proprietário de pagar por um novo hidrômetro quando o antigo é furtado. Segundo o Canaltech, o texto saiu do ChatGPT, com oito artigos e a justificativa, e a ferramenta ainda acrescentou um artigo que ninguém tinha pedido. O autor, o vereador Ramiro Rosário (PSDB), só revelou o uso depois da sanção. O presidente da Câmara, Hamilton Sossmeier (PTB), que votou sem saber da origem do texto, disse que o caso "acende uma luz de alerta" e classificou o episódio como "um precedente perigoso, complicado".

Em novembro de 2023, o Olhar Digital, com base em reportagem do g1, noticiou que o juiz federal Jefferson Ferreira Rodrigues, do Acre, assinou uma sentença que citava julgados do Superior Tribunal de Justiça que não existem, levantados com o ChatGPT. O CNJ abriu investigação. O juiz tratou o caso como "erro corriqueiro" e atribuiu a pesquisa a um servidor do gabinete.

No Peru, em maio de 2024, o congressista Paul Gutiérrez Ticona apresentou um projeto de lei que trazia colada a resposta da IA, segundo a Exitosa, com base no jornal El Comercio. Em tradução livre, o texto dizia: "Como modelo de linguagem de IA, não tenho acesso a informação em tempo real". A reportagem não registra resposta do congressista nem de terceiros.

Homem apresentando para um grupo em um escritório
Foto: Matthew Osborn no Unsplash

Chefes de governo e IA: Suécia e Nova York

Em agosto de 2025, o primeiro-ministro da Suécia, Ulf Kristersson, admitiu usar o ChatGPT e o LeChat para ter uma segunda opinião. "Eu mesmo uso com bastante frequência", disse, em citação traduzida pela Fast Company Brasil. Um editorial do jornal Aftonbladet afirmou que ele teria "caído na psicose da IA dos oligarcas", e a pesquisadora Virginia Dignum, da Universidade de Umeå, resumiu a crítica: "Nós não votamos no ChatGPT". O porta-voz do governo disse que o uso servia como referência geral e não envolvia informações sensíveis à segurança. O episódio trata do uso de IA no cargo e não tem relação com um discurso específico.

Em Nova York, em outubro de 2023, ligações automáticas da prefeitura usaram a voz do prefeito Eric Adams, gerada por IA, em espanhol, iídiche, mandarim, cantonês e crioulo haitiano. Adams só fala inglês, e as ligações não avisavam que a voz era sintética. Segundo o StateScoop, com base na AP, foram mais de 5.000 ligações em espanhol, mais de 250 em iídiche, mais de 160 em mandarim, 89 em cantonês e 23 em crioulo haitiano. Albert Fox Cahn, da organização S.T.O.P., disse que a iniciativa era "profundamente antiética, ainda mais com dinheiro do contribuinte" e a chamou de projeto de vaidade.

Existe esse risco de cair no clichê dos roteiros de IA e virar uma chacota, ao invés de conectar de fato com o público.
Léo Bento, roteirista e fundador da Mentoniano

O padrão que liga esses casos ao discurso de palanque

Quando lemos os episódios em conjunto, fica claro em que circunstâncias a IA vira problema público. Em Cuiabá, em Minas Gerais e no Peru, ela foi descoberta por descuido, com uma frase de máquina esquecida no texto. Em Porto Alegre, foi revelada só depois de os colegas terem votado. Em Nova York, a tecnologia fez o prefeito parecer falar idiomas que ele não fala. Nos casos em que as reportagens registram reação, as críticas se voltaram para o autor e para a confiança que ele merece.

Esse padrão conversa com outros dois artigos da série. O quarto analisa a expressão "I rise to speak", que se multiplicou nos discursos do Parlamento britânico e virou indício de texto feito por IA. O quinto trata da mensagem enviada pela Vanderbilt depois de um tiroteio, em que a origem do texto no ChatGPT provocou um pedido público de desculpas.

Agora pense no seu próximo evento. Um discurso de posse, uma homenagem ou uma abertura de convenção são lidos ao vivo, muitas vezes filmados e postados pela própria empresa. Uma frase que soe como resposta de chatbot fica registrada no vídeo, e esse vídeo pode circular entre colaboradores, clientes e concorrentes. Bastam alguns segundos para alguém fazer o print ou recortar o trecho.

Na prática

  • Revise o texto final procurando restos de conversa com ferramentas, como instruções, avisos e frases de abertura de resposta.
  • Peça que uma segunda pessoa leia o discurso inteiro antes do evento, com a tarefa específica de encontrar frases que soem artificiais.
  • Se a IA participou do texto, conte isso por iniciativa própria, antes que alguém descubra.
  • Em discursos de posse, homenagem e luto, escreva com suas próprias palavras ou com um roteirista que conheça a sua história.

Referências

  1. FolhaMax. Vereador vira piada ao postar texto com assinatura do ChatGPT, 14 out. 2025. Acessar
  2. Poder360. Decisão que absolveu homem por estupro tinha prompt de IA, 25 fev. 2026. Acessar
  3. Correio. Esqueceu de apagar: frase indica uso de ChatGPT em decisão que absolveu acusado, 24 fev. 2026. Acessar
  4. Canaltech. Lei escrita pelo ChatGPT é aprovada em Porto Alegre, 29 nov. 2023. Acessar
  5. Olhar Digital. IA é usada por juiz que sentencia com informações falsas; CNJ investiga, 13 nov. 2023. Acessar
  6. Exitosa. Congresista Paul Gutiérrez utilizó ChatGPT para elaborar proyectos de ley, 22 maio 2024. Acessar
  7. Fast Company Brasil. Primeiro-ministro sueco é detonado ao admitir usar IA para exercer cargo, 7 ago. 2025. Acessar
  8. StateScoop. NYC Mayor Eric Adams robocalls in languages he doesn't speak, 18 out. 2023. Acessar

Tags

  • polêmica com ia
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