Dá para perceber quando um texto foi escrito por IA? O que dizem as pesquisas
Três pesquisas acadêmicas mostram que a percepção da escrita de máquina depende de quem lê, e explicam por que isso pesa na sua campanha.
Em 30 segundos
- Em um estudo de 2025, leitores que usam IA com frequência identificaram textos gerados com altíssima precisão.
- Em um estudo de 2023 com textos curtos, leitores sem treino acertaram cerca de metade das vezes.
- Análises em grande escala revelam o vocabulário típico dos modelos de linguagem.
- Numa campanha, a parcela do público que percebe já basta para definir a conversa.
Se você aprova campanhas, provavelmente já ouviu que o texto gerado por inteligência artificial passa despercebido. Pesquisas publicadas nos últimos anos permitem testar essa afirmação, e os resultados interessam diretamente a quem cuida da mensagem de uma marca.
Neste segundo artigo da série, reunimos três estudos acadêmicos que mediram a capacidade de pessoas e de análises estatísticas de reconhecer a escrita de máquina. Os resultados variam conforme quem lê, o tipo de texto e a familiaridade do leitor com essas ferramentas.
Quem usa IA com frequência reconhece o texto de máquina
Em 2025, os pesquisadores Jenna Russell, Marzena Karpinska e Mohit Iyyer publicaram um estudo de título direto: pessoas que usam o ChatGPT com frequência para escrever são detectoras precisas de texto gerado por IA. Eles reuniram 300 artigos de não ficção em inglês, parte escrita por pessoas e parte gerada por modelos comerciais como GPT-4o, Claude e o1.
Para o seu marketing, o detalhe mais útil está nas pistas que esses leitores usaram. Eles apontaram um "vocabulário de IA", com palavras que aparecem com frequência incomum nos textos gerados, e avaliaram formalidade, originalidade e clareza. Perceberam, na prática, a escrita que soa correta e previsível ao mesmo tempo.
Esse grupo de leitores está dentro da sua empresa e fora dela. Redatores, jornalistas, criadores de conteúdo e profissionais de comunicação usam essas ferramentas no dia a dia e treinaram o olhar sem perceber. Muitos deles fazem parte do público da sua campanha e comentam nas redes o que veem.
Leitores sem familiaridade com a ferramenta acertam perto do acaso
Um estudo anterior testou leitores sem essa convivência. Em março de 2023, Maurice Jakesch, Jeff Hancock e Mor Naaman publicaram na revista PNAS um estudo com cerca de 4.600 participantes, que avaliaram 7.600 textos curtos de apresentação pessoal, como perfis de candidatos a emprego, de aplicativos de namoro e de anfitriões do Airbnb.
Os participantes acertaram a origem dos textos em 50% a 52% das vezes, resultado próximo ao de uma moeda jogada para o alto. Segundo a divulgação da Universidade Cornell, eles se guiavam por atalhos falhos: menções à família, a experiências de vida e o uso da primeira pessoa eram lidos como sinais de autoria humana.
Mentoniano é o nome daquela parte do queixo que contrai quando a pessoa se emociona. É a primeira evidência física de que a mensagem emocionou a pessoa.
Esse resultado costuma ser citado como prova de que ninguém percebe a IA. O desenho da pesquisa ajuda você a medir o alcance dessa conclusão na publicidade: o estudo testou textos curtos de apresentação pessoal, com modelos de 2023, e leitores sem treino. Um filme publicitário enfrenta um escrutínio maior, porque circula em grande escala, chega a leitores treinados e vira assunto nas redes.
Mor Naaman explicou na divulgação do estudo que esses sistemas produzem texto estatisticamente provável, ou seja, linguagem comum. Na publicidade, essa característica pesa ainda mais, porque a sua marca precisa justamente sair do comum para ser lembrada.
As marcas da máquina aparecem em escala
O terceiro estudo olha para a escrita de forma coletiva. Dmitry Kobak e colegas analisaram mais de 15 milhões de resumos de artigos biomédicos indexados no PubMed e mediram o uso de palavras que cresceu de forma anormal depois da chegada dos modelos de linguagem.
Os autores estimaram que pelo menos 13,5% dos resumos publicados em 2024 passaram por processamento com modelos de linguagem, com índices que chegam a 40% em alguns subconjuntos. As palavras que denunciam esse uso, em inglês, incluem termos como "delves", "showcasing", "underscores" e "crucial".
Para a sua marca, o estudo indica que cada modelo tem preferências de vocabulário, e essas preferências deixam rastros mensuráveis quando muitos textos saem da mesma ferramenta. Um roteiro publicitário nascido desse processo tende a carregar as mesmas digitais.
O que a divergência entre os estudos ensina a você
Lidas em conjunto, as pesquisas mostram que a percepção depende de quem lê. A precisão foi alta entre quem usa IA com frequência e ficou perto do acaso entre leitores sem treino. As análises em larga escala acrescentam padrões que um texto isolado esconde.
Numa campanha, a parte do público que percebe já basta para criar o problema. É ela que comenta, compartilha o print e define o tom da conversa sobre o filme. O terceiro artigo da série mostra o que acontece quando essa conversa toma conta de um lançamento.
Há ainda uma questão anterior à detecção. Mesmo quando ninguém identifica a origem, o texto provável tende a soar parecido com tantos outros. A NielsenIQ, como vimos no primeiro artigo, registrou que anúncios feitos com IA provocaram ativação de memória mais fraca, inclusive os de alta qualidade.
Na prática
- Peça a alguém que usa IA todos os dias para ler o roteiro antes da aprovação e apontar os trechos que soam gerados.
- Desconfie de textos corretos e previsíveis ao mesmo tempo, com palavras que caberiam em qualquer campanha.
- Lembre que a conversa sobre o seu filme será puxada pela parcela do público que percebe.
- Exija no roteiro detalhes concretos da marca e do público, porque a média estatística dificilmente os produz.
Referências
- Russell, J.; Karpinska, M.; Iyyer, M. People who frequently use ChatGPT for writing tasks are accurate and robust detectors of AI-generated text. arXiv, 2025. Acessar
- Cornell Bowers CIS. Human heuristics for AI-generated language are flawed (estudo publicado na PNAS), mar. 2023. Acessar
- Kobak, D. et al. Delving into LLM-assisted writing in biomedical publications through excess vocabulary. arXiv. Acessar
- NielsenIQ. NIQ research uncovers hidden consumer attitudes toward AI-generated ads, 12 dez. 2024. Acessar
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