Comerciais feitos com IA que viraram polêmica: o que Coca-Cola, McDonald's e Toys“R”Us ensinam
Quatro campanhas de grandes marcas mostram como a sensação de artificialidade pode tomar conta da conversa sobre um lançamento.
Em 30 segundos
- A Coca-Cola recebeu críticas por filmes de Natal feitos com IA em 2024 e em 2025.
- O McDonald's da Holanda retirou do ar um comercial de IA poucos dias depois da estreia.
- A Toys“R”Us e a Guess também enfrentaram reações negativas nas redes.
- Nos quatro casos, o público reagiu à sensação de artificialidade em campanhas emocionais.
Grandes marcas, com orçamentos generosos e equipes experientes, já levaram ao ar filmes produzidos com inteligência artificial generativa. Alguns desses lançamentos viraram assunto na imprensa internacional pelos comentários negativos que receberam. Olhar para esses casos com calma ajuda você a antecipar riscos antes de aprovar a próxima campanha.
Neste terceiro artigo da série, reunimos quatro episódios documentados por veículos jornalísticos. Em todos eles, a reação do público girou em torno da mesma percepção: a sensação de artificialidade em campanhas pensadas para aproximar a marca das pessoas.
Coca-Cola e a recriação de um clássico de Natal
Em novembro de 2024, a Coca-Cola lançou um comercial de Natal gerado com IA que recriava a campanha "Holidays Are Coming", de 1995, com o comboio de caminhões da marca chegando a uma cidade coberta de neve. Segundo o portal Storyboard18, usuários de redes sociais chamaram o filme de "assustador", "sem alma" e "distópico". Um comentário no YouTube classificou a peça como "AI-generated slop", expressão em inglês para conteúdo de IA de baixa qualidade.
A reportagem também registrou defensores, para quem a produção provavelmente custou menos e a IA é uma ferramenta para pessoas criativas.
Em novembro de 2025, a empresa repetiu a aposta com um novo filme de Natal gerado por IA. A análise publicada pelo TechRadar reconheceu avanços técnicos em relação ao ano anterior, afirmou que o comercial continuava sem o calor emocional do original de 1995 e descreveu a peça como uma imitação de nostalgia.
McDonald's e o filme que saiu do ar
Em dezembro de 2025, o McDonald's da Holanda publicou no YouTube um comercial de 45 segundos feito com IA, produzido pela The Sweetshop Films com a agência TBWA/Neboko. O filme mostrava contratempos das festas de fim de ano e convidava o público a se refugiar no McDonald's até janeiro.
Segundo a NBC News, a diretora Melanie Bridge, da produtora, defendeu o projeto em uma publicação depois apagada. Ela contou que o trabalho ocupou uma equipe de dez pessoas em tempo integral durante cinco semanas. O relato mostra que um filme feito com IA pode exigir uma equipe profissional e semanas de trabalho.
Existe esse risco de cair no clichê dos roteiros de IA e virar uma chacota, ao invés de conectar de fato com o público.
Toys"R"Us e o filme de marca feito com Sora
Em 2024, a Toys"R"Us apresentou no Festival de Cannes um filme de cerca de um minuto feito com o Sora, ferramenta de vídeo da OpenAI. A peça contava a origem da empresa a partir do fundador Charles Lazarus e foi produzida pela agência Native Foreign, com cerca de uma dúzia de pessoas ao longo de três meses, segundo a NBC News.
A reação nas redes incluiu críticas de profissionais criativos preocupados com o trabalho em atuação, roteiro e design. Um artista de quadrinhos citado pela NBC News afirmou que contratar atores teria deixado o vídeo muito menos estranho. Kim Miller Olko, presidente da Toys"R"Us Studios, chamou o projeto de teste, considerou o resultado bem-sucedido e disse que a IA generativa entraria no repertório da empresa como uma ferramenta entre muitas.
Guess, Vogue e as modelos que não existem
Em agosto de 2025, anúncios da Guess publicados na edição americana da Vogue usaram modelos criadas por IA pela agência londrina Seraphinne Vallora. De acordo com a ABC7, usuárias do TikTok criticaram a escolha, e uma delas afirmou que o anúncio não despertou nela nenhuma vontade de comprar. As fundadoras da agência declararam que não pretendem tomar o lugar da indústria de modelos.
O padrão que se repete nos quatro casos
Os episódios têm pontos em comum. Todos envolveram marcas conhecidas e equipes profissionais, em campanhas emocionais ou ligadas à identidade da empresa. Em todos, o público reagiu à sensação de artificialidade, e a conversa nas redes passou a girar em torno da tecnologia usada no filme.
Se você está à frente da marca, o custo aparece em várias frentes: tempo da equipe respondendo a críticas, verba de mídia aplicada num filme retirado do ar, desgaste com o público e uma associação incômoda com a palavra "slop". O nono artigo da série volta a esse tema com orientações para evitar que o seu filme vire piada.
Na nossa leitura, os casos mostram também que a decisão de usar IA envolve a história que o filme conta. Datas afetivas, como o Natal, e narrativas sobre a origem da marca pedem uma conexão humana que o público cobra com rigor.
Na prática
- Antes de aprovar um filme com IA, avalie o peso emocional da data e da narrativa envolvidas.
- Mostre o filme a pessoas de fora da equipe e peça reações sinceras sobre naturalidade.
- Prepare a resposta da marca antes do lançamento, para o caso de a conversa nas redes tomar outro rumo.
- Garanta que o roteiro tenha uma ideia forte e humana, seja qual for a técnica de produção.
Referências
- Storyboard18. Coca-Cola's AI-generated Christmas ad sparks outrage, 18 nov. 2024. Acessar
- TechRadar. Coca-Cola faces backlash again for missing the spirit of the holidays with another AI-slop ad, 4 nov. 2025. Acessar
- NBC News. Not lovin' it: McDonald's pulls AI-generated Christmas ad after social media backlash, dez. 2025. Acessar
- NBC News. Toys 'R' Us calls AI-made video 'successful' despite online criticism, 2024. Acessar
- ABC7 News. Controversy stirs over AI generated 'models' in new Guess ads appearing in Vogue, 1 ago. 2025. Acessar
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